A história de Eugenia Martinez Vallejo

Nascida em 1674 em Bárcenas, Espanha, Eugenia Martinez Vallejo é conhecida por aparecer em duas pinturas do artista Juan Carreno de Miranda. Conhecido por seus retratos, o pintor barroco foi nomeado pintor da corte da rainha em 1671. No entanto, permaneceu por muito tempo na sombra do famoso Diego Velázquez, que era seu amigo.

Pintados em 1680, ambos os retratos de Eugenia podem ser vistos hoje no Museo Del Prado, em Madri, onde são expostos lado a lado como um par. Porém, chamá-la de musa seria um equívoco. Eugenia foi levada aos 6 anos à corte de Carlos II, que foi quem encomendou as obras. Lá, ela foi exibida por causa de sua obesidade como algo exótico ou uma ‘aberração’. O termo desumano era frequentemente usado para se referir a pessoas com deficiência. Na verdade, era prática comum os aristocratas tirarem vantagem dos deficientes para sua própria diversão, exibindo-os como meros objetos. Um dos exemplos mais famosos disso é a pintura Las Meninas, pintada por Velázquez em 1656. A notória pintura inclui Maria Barbola, que sofria de nanismo acondroplásico. No entanto, este não foi um caso isolado. Filipe IV, que era o rei vigente na época, manteve na corte real cerca de 110 pessoas que sofriam de nanismo.

No caso de Eugenia, o pintor chega a se referir a ela como um monstro. De fato, as pinturas são conhecidas como O Monstro Vestido e O Monstro Despido. O último retrato mostra Eugenia posando nua e privada de sua humanidade como uma criatura mitológica. Isso muitas vezes leva a pintura a ser legendada como Baco, que é o deus romano do vinho, festividade e insanidade. No outro retrato, Eugenia usa um vestido vermelho e branco que transforma o corpo de Eugenia em uma forma deformada. Embora os retratos sejam elogiados pelos historiadores da arte por apresentá-la com dignidade, isso não passa de um equívoco. Na verdade, é impossível ignorar a realidade sombria que está em jogo. Nos retratos, Eugenia aparece extremamente triste e desconfortável.

Detail from Eugenia Martinez Vallejo, Naked. Juan Carreño de Miranda. Oil on canvas, c. 1680.

Image from Museo del Prado.

A menina, que veio de uma família pobre, sofria da síndrome de Prader-Willi. A doença genética, que geralmente aparece na infância, é acompanhada por várias complicações físicas. Um desses sintomas é a obesidade, pois um dos efeitos é sentir fome constante. Embora muitas leis tenham sido aprovadas para restringir a exploração de pessoas com deficiência, a discriminação contra pessoas obesas persiste e ainda tem muitas consequências. Isso infelizmente é visível no site do Prado, onde podemos encontrar a apresentação das obras. Na análise, a instituição decide ignorar completamente a realidade retratada e contribui para perpetuar a violência. Por isso é tão importante contar a história de Eugenia e mudar a narrativa para ajudá-la a recuperar a dignidade que merece e quebrar o estigma. 

Texto: Claire Rochet
Contributor

Foto de capa: Eugenia Martinez Vallejo, Clothed. Juan Carreño de Miranda. Oil on canvas, c. 1680.

Image from Museo del Prado.

Girl Museum Inc.
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